
Por Paulo Padovani
Diante das recentes movimentações no Parlamento Italiano, é preciso fazer um alerta claro e firme: estamos diante de um desrespeito grave ao processo democrático.
O Decreto-Lei nº 36/2025, conhecido como Decreto Tajani, propõe alterações profundas no reconhecimento da cidadania italiana por descendência. Um tema sensível, que afeta diretamente milhões de ítalo-descendentes em todo o mundo, especialmente no Brasil.
No entanto, ao invés de seguir um caminho de escuta, debate e revisão, como se espera em qualquer democracia madura, o governo opta por impor o voto de confiança (voto di fiducia) para acelerar a aprovação do texto no Parlamento.
Esse mecanismo, embora legal, é extremamente problemático. Ele impede a apresentação e análise de emendas parlamentares e transforma a votação em uma decisão binária: ou se aprova o decreto como está, ou ele é rejeitado por completo. Não há espaço para críticas construtivas, ajustes técnicos ou correções de injustiças.
Trata-se de uma manobra que silencia o debate, anula o papel dos parlamentares e desconsidera as vozes de comunidades inteiras que vêm se manifestando com clareza e legitimidade.
Como cidadão italiano e especialista em cidadania há quase duas décadas, não posso me calar diante dessa ameaça. O voto di fiducia pode até acelerar processos, mas quando utilizado para impedir o contraditório, ele fere o espírito da democracia.
A cidadania italiana não é apenas um direito jurídico. Ela carrega história, pertencimento e identidade. Tratá-la com pressa, sem debate, é desrespeitar não apenas o texto da lei, mas tudo o que ela representa.
Seguiremos atentos, atuantes e firmes na defesa de um processo legislativo justo, transparente e respeitoso com os milhões de descendentes de italianos ao redor do mundo.
Democracia se faz com diálogo, não com imposição.